Me emprestaram um maravilhoso livro de Leonardo
Boff, há alguns anos, onde ele falava sobre a origem dos Sacramentos
católicos. Todo sacramento, ele explicava, contém um objeto e um
gesto. Na Eucaristia, por exemplo, os objetos são o pão e o vinho, e
o gesto é o sacrifício, a doação, a partilha. Ele falava da caneca
que toda a sua família usava para matar a sede no pote, e dos dias
em que a sua mãe fazia pão, e repartia. A caneca, o pão, eram
sacramentais para ele. O Sacramental, assim, é um objeto que tem um
valor maior do que aquilo que vemos. Quando o pai morreu, Boff
estava longe, na Alemanha. Sua irmã lhe mandou uma carta com a
notícia triste. No fundo do envelope, Boff encontrou o toco do
último cigarro de palha que o pai fumou. Todas as vezes que a
saudade apertava, ele pegava aquele toco, sentia o cheiro, e viajava
para a infância, para o colo do pai, na varanda, quando ele chegava
do trabalho.
Eu pensei nisso quando Olendino me falou do grande "tesouro" que
garimpou numa lojinha de usados, em 1974: uma "Edição Monstro", da
Editora Outubro, que ele guarda com absoluto zelo, por todos esses
anos. A devoção dele é tanta que eu, mesmo judia, quase me benzi
antes de tocar tal sacramental. A "Edição Monstro" consiste numa
encadernação de quatro números da "Terror Magazine", uma revista em
formatinho ("de bolso", como se dizia na época), publicada no início
dos anos sessenta (quem souber a data exata, por favor nos informe).
Na coletânea, vemos quase todos os autores mais importantes do staff
da Outubro e curiosidades, como charges humorísticas de Lyrio Aragão
e contos de Hélio Porto, ilustrados por Jayme Cortez. Em um dos
números da revista, o Editor comenta entusiasmado a carta de um
certo Rubens Francisco Lucchetti, de Ribeirão Preto: "...quanto ao
envio de suas colaborações (...) se suas histórias tiverem o bom
nível de sua carta, esteja certo, nós as mandaremos ilustrar e as
publicaremos." Em 1963, a Outubro publicaria , na série Super-Bolso,
o título "Noite Diabólica", uma coletânea de contos de Lucchetti,
ilustrados por Jayme Cortez. Este foi, segundo Rudolf Piper, o
primeiro livro de terror escrito e publicado no Brasil.

Olendino me mostra os vestígios da história pessoal de um dos
antigos donos da revista: "Ele escreveu o nome, com vistosa
caligrafia a caneta tinteiro: Walter de almeida (não tenho idéia de
quem seja). Páginas adiante está escrito, com a mesma letra, outro
nome: Helena de Jesus Pena (uma namorada? uma paixão?); e mais
adiante: Helena Pena de Almeida (um sonho? Correu tudo bem?). Na
contra-capa ele anotou com letras bordadas: Música - Separação,
Cantor - Cláudio de Barros. Veja como era a cabeça das pessoas da
época: um romântico apaixonado, que gostava de histórias de
vampiro".
Mas o que me chamou atenção mesmo foram as HQ das revistas. E que
histórias! A gente se pergunta como podem ter caído no esquecimento
trabalhos de tal nível. Estamos reproduzindo aqui apenas uma pequena
amostra das tais quatrocentas páginas citadas na capa.
Quando devolvi o sacramental às mãos de Olendino, ele pegou a
revista, contemplou as páginas com um brilho nos olhos. Perguntei o
que ele estava vendo. Ele respondeu, quase em transe:"Eu tinha seis
anos de idade e ainda não sabia ler. Morava em um barracão sem
energia elétrica, num bairro ainda semi-deserto. Meu irmão mais
velho chegou com umas revistas novas de Dom Pixote, Jambo e Ruivão e
Mindinho. Uma outra revista, ele não deixou que os mais novos
vissem. Tudo bem! Mais tarde eu, sorrateiramente, levantaria o
colchão da cama dele, onde encontrava escondidas as imagens de
pesadelo que tanto me fascinavam".