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Acima: neste quadro de "O Escultor da Morte"
podemos notar a grande habilidade de Lyrio como fisionomista. Aqui
ele e Igayara são perfeitamente reconhecíveis, no entanto "vivem o
papel" como bons atores. Note-se a expressão apalermada de "Macaco"
e a atitude resoluta de "Aureliano". Aliás é surpreendente a
expressividade de Aureliano em toda a história, uma vez que só
conseguimos ver seus olhos na última cena.

Acima: "A Cimitarra de Mefistófeles", de
Shimamoto. Enquanto os colegas do Estúdio se voltavam mais para
histórias passadas em épocas e locais distantes, Lyrio tinha uma
predileção pelos dramas do cotidiano vividos por personagens que o
leitor poderia encontrar facilmente na rua. Como na história "Paula"
(abaixo).

Abaixo: o Detetive Otávio e sua transformação
no Detetive Teobaldo, personagem da tira desenhada por Aragão e
distribuída pela Maurício de Sousa Produções, no início dos anos
1960.


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Freqüentemente os trabalhos de Aragão tinham dois
níveis de leitura: o primeiro voltado para o leitor comum, e o
segundo para os "iniciados" capazes de decifrar suas ironias e
"pegadinhas". O leitor comum se divertia ao ler uma aventura do
detetive Nico Martim, mesmo sem saber que tal personagem era um
retrato de Jayme Cortez Martins. Na aventura "O Túmulo de Diva
Lara", no momento em que Nico e um coveiro se deparam com uma
vampira em um cemitério, irrompe a frase: -"Veja, seu detetive!
Uma mulher com um guarda-chuva nas costas!" Essa descrição
bem poderia ter sido pinçada de um dos comentários irônicos do
próprio Cortez em relação ao trabalho de algum artista. Talvez, do
próprio Aragão. Mas um dos melhores exemplos desses dois "níveis"
de leitura é a história "Os Mortos Nunca Voltam". Esta é uma
história de terror para o leitor comum, e uma história humorística
para os "iniciados". Tudo começou na vida real, quando Aragão mandou
que seu amigo, o guarda-civil Luiz Bóros, procurasse Jayme Cortez na
Outubro. Bóros se julgava candidato a ser mais um
"policial-quadrinista". Cortez, no entanto, foi direto como sempre:
considerou os desenhos de Bóros inadequados, e seu roteiro (que
narrava a vingança de um morto), muito "batido". Aragão, que
costumava desenhar o amigo Bóros em suas histórias, "vingou-o" com
essa historieta, na qual o desenhista Luiz Suzano (Bóros), ao sair
frustrado da Outubro, era atropelado na rua da Moóca, morria, e
voltava do túmulo para estrangular o editor apavorado. |
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| Acima: o guarda
civil Luiz Bóros sobe as escadarias da Outubro com uma pasta de
desenhos. Essa cena real inspirou uma história ao mesmo tempo
trágica e cômica. Abaixo: se você está pensando onde já viu esse
rosto, olhe bem para o conde Louis Von Bóros, o Lobisomem de
Londres, criação do investigador-quadrinista Gedeone.
Coincidência? |
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Lyrio Aragão também produziu várias
histórias de terror em estilo mais "tradicional", povoadas por
monstros e ambientadas em locais exóticos como o Sahara, a
Transilvânia, ou o México zapatista. Essas histórias, as quais ele
assinava como Arellano (provavelmente o sobrenome da família de sua
mãe), eram quase sempre apresentadas por um personagem sinistro,
êmulo do Dr. Morte das histórias de terror norte-americanas
publicadas no Brasil pela Editora La Selva. Mesmo nessas histórias,
Lyrio não deixava de retratar seus amigos e colegas, tanto policiais
quanto desenhistas.
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| Acima: o Editor de
Arte... perdão, o Detetive Nico Martim enfrenta Diva Lara, a "mulher
com um guarda-chuva nas costas". |
Os anos passados no estúdio do
Martinelli parecem ter sido para Aragão sua melhor fase criativa e
pessoal. Com sua personalidade expansiva e alegre, ele cativou dois
tímidos e fiéis amigos: Júlio Shimamoto e Luiz Saidenberg. O próprio
Saidenberg nos conta: -"Lyrio era mais velho e tinha mais
experiência das coisas do que Shima e eu. Foi muitas vezes nosso
guia (como o guia Arellano de "Na Trilha de Masamune") nas rotas da
boêmia noturna. Ele nos revelou um pequeno roteiro de restaurantes
da São Paulo da época, entre outras coisas. Graças a ele, conhecemos
a Caverna Santo Antônio, na rua Líbero Badaró, quase esquina com o
largo de São Bento, e lá comemos e tomamos umas e outras. Conhecemos
a Adega Lisboa Antiga e saboreamos sardinhas na brasa num boteco no
largo de São Francisco. Na praça da Sé conhecemos um bilhar onde se
tomava um bom choppe. E o restaurante Dom, bom e barato, onde se
comia no balcão. Nada disso existe mais. Em tempos mais prósperos de
McCann Erickson, fomos os três, num sábado, almoçar no Gigetto,
badalado restaurante da rua Nestor Pestana, freqüentado por gente de
teatro e da vizinha TV Excelsior, com direito a Chico Anysio sentado
na mesa vizinha. (...) Íamos também ao cinema. Vimos juntos o
inevitável "Vampiro da Noite", da Hammer, com Cristopher Lee. Certa
vez fomos ao bairro da Liberdade, reduto japonês de São Paulo, onde
Shima assumiu o comando. Alí assistimos a um filme de samurais e
comemos "motis", bolinhos de arroz japoneses. Bons tempos,
mesmo!..." |
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