Acima: início dos anos 1960. A luz do flash revela o olhar matreiro que quase sempre estava oculto sob os óculos escuros que, junto com o amplo sorriso, eram as marcas mais características de Lyrio Aragão Dias.
Abaixo: "Paula". A presença do sobrenatural no cotidiano.

Abaixo: Lyrio preferia usar a si próprio e a amigos e familiares como modelos para suas personagens. Por pura ironia, ele desenhou seu colega de polícia Igayara várias vezes no papel de bandido. Na história "Ambição" Igayara surge como um assassino. Mais tarde, ele se "vingaria" com seu traço satírico demolidor. No desenho da direita, Igayara registrou Aragão e Saidenberg com seus inseparáveis óculos, adeptos da elegância mesmo com pouco dinheiro nos bolsos
(repare as solas dos sapatos).

Abaixo: o Diretor de Arte Jayme Cortez várias vezes foi transformado em personagem.
Nesses dois desenhos ele exerce suas funções de costume. No primeiro, examina uma história desenhada pelo guarda civil Luís Bóros.
Bóros, o "Lobisomem de Londres", na verdade morava em Suzano.

Abaixo: na história "O Conquistador", alguns policiais amigos de Aragão reunidos em um bar, entre eles o detetive Otávio e o guarda Luiz Bóros. Otávio serviria de modelo, mais tarde, para o personagem cômico Detetive Teobaldo.

Matéria gentilmente cedida por Olendino Mendes

por Olendino
(com a valiosa colaboração de Luiz Saidenberg)
Meus primeiros encontros com as revistas de terror da Editora Outubro se deram na época em que eu era uma criança ainda em processo de alfabetização. Só pude apreciar tais histórias de forma completa um pouco mais tarde, quando elas passaram a ser reprisadas em revistas de outras editoras, como a Taika e a Jotaesse.
Em 1967, fiquei encantado com uma historieta intitulada "Paula". Tudo nessa história me pareceu exemplar: o claro-escuro, os enquadramentos, o ritmo da narrativa e, sobretudo, a caracterização das personagens. Guardei imediatamente o sonoro nome do autor: Lyrio Aragão. Dois anos mais tarde, descobri mais histórias dele, além de charges e "piadas do Além" que ele tinha criado. Quando adquiri a revista mais preciosa de minha coleção (Veja em Páginas Amarelas), comecei a observar os detalhes curiosos: um fantasma deixando um terno na "Lavanderia Shimamoto". E esse fantasma se chamava "José Kerskis". Sempre fui daqueles que lêem tudo numa revista, inclusive o expediente, e por isso sabia que José Sidekerskis era um dos sócios da Editora Outubro (mais tarde ele fundaria a Jotaesse Editora). Naquele momento eu começava a desvendar as brincadeiras de um dos autores mais marcantes, originais e espirituosos que as HQ já conheceram. E que nos deixou há exatos trinta e cinco anos.
O investigador policial Lyrio Aragão Dias foi, como seu colega de profissão Waldyr Igayara, introduzido no mundo dos quadrinhos pelo decano dos policiais-quadrinistas: Gedeone Malagola. Como todo iniciante da época, Lyrio passou pelo crivo de Jayme Cortez, que lhe deu as noções básicas do que as revistas da Outubro pediam. Mas, ao contrário da maioria de seus colegas que ambientavam suas histórias em locações exóticas, Lyrio optou quase sempre pela paisagem urbana. Assim, um pouco como Jota Carlos fizera antes com o Rio de Janeiro, Aragão registrou em seus quadrinhos a São Paulo da transição dos anos 1950/1960. Em suas histórias encontramos as ruas de subúrbio, os botequins, os pequenos comércios das vilas, boêmios, motoristas de táxi, homens de bigodinho sentados em bares com o cabelo glostorado e lencinho perfumado metido no bolsinho dos ternos alinhados, mulheres de olhar misterioso, e conquistadores orgulhosos guiando seus automóveis "rabo-de-peixe".
Se toda a obra de Lyrio tivesse se perdido, como descreveríamos seu desenho a quem nunca o tivesse visto? Para mim, seria algo como um misto da arte clássica de Alex Toth e a veia satírica de Jordi Bernet. Como o mestre norte-americano, Lyrio era exímio no claro-escuro e no uso dramático da luz. Como o mestre espanhol, possuia um talento mordaz para a caracterização das personagens, e um fino humor negro.
Acima: "Papai e o Pi", de Bill DuBay/Alex Toth, e "Torpedo 1936", de Sanchez-Abuli/Jordi Bernet.
Abaixo: criatividade e irreverência. Na história "O Escultor da Morte", Lyrio retratou a sí próprio e ao amigo Igayara (ambos policiais) como dois bandidos: "Aureliano" e "Macaco"; o primeiro golpista, o segundo arrombador.
Lyrio era de ascendência espanhola ("Yo soy gitano! Olé!" - ele exclamou, certa vez.) e temperamento naturalmente passional e expansivo. Dele se contam muitas histórias curiosas, principalmente nos anos em que foi um dos ocupantes do estúdio da sala 1922 do edifício Martinelli. Um de seus hábitos de então era atribuir apelidos "terroríficos" aos amigos. Assim, Shimamoto virava "Shimamorto", Ataíde era o "Conde Ataúde", e por aí vai. Em "represália", os amigos retribuíam também com apelidos jocosos. Igayara se referia ao amigo brincalhão como "Aureliano", satirizando o pseudônimo "Arellano" que Lyrio muitas vezes usava para assinar seus trabalhos. Já para Saidenberg, Aragão passou a ser o "Conde Lyrio". Em seus rompantes hilários, o pândego Aragão não se limitava a dar tiros para o ar, das janelas do Martinelli. Testemunhas estupefatas viram, certa vez, Lyrio Aragão Dias agarrar de brincadeira o ocupante da sala vizinha, o alfaiate João Dias, enquanto exclamava: -"Nada como um DIAS atrás do outro!". Era natural, então, que o humor que ele irradiava no dia-a-dia do estúdio impregnasse também suas histórias de terror.
Acima: à esquerda, o assistente de arte de Jayme Cortez na Outubro, Antônio (Toninho) Duarte, retratado por Lyrio na história "Mêdo". À direita, algumas charges de Toninho publicadas na Terror Magazine.
Abaixo: em uma de suas charges mordazes, Lyrio satirizou Duarte que, vitimado por uma calvície precoce, tinha um tufo de cabelos arrepiados no cocoruto. Duarte viveria ainda muitos anos. Recentemente, foi morto por um assaltante.