O fanzine é tal qual uma força da Natureza:
impossível ser contido. O fanzine é fundamentalista, é radical.
Existem monges que se imolam com fogo em praça pública… existem
homens-bomba… e existem fanzineiros.
Visto pelos incautos como
ativismo isolado e decentralizado, trincheira de ingênuos ou
desesperados, o fanzine pode incomodar e mesmo ameaçar aqueles que
temem as forças subterrâneas. Tomando a descrição que Allan Moore
faz da cultura em DO INFERNO, podemos concluir que o fanzine é
dionisíaco, jamais apolíneo, e portanto capaz de revoluções
invisíveis, perpetradas como o foram os crimes de Whitechapel - na
calada de noites sinistras. Graças a fanzineiros, o poder já mudou
de mãos e o bonde da História mal percebeu.
Será o fanzine uma
forma artística ? Não sei. Mas, com certeza ele é processo e não
produto acabado. Ele é embrionário e por isso ameaçador.
Aonde
quer chegar o fanzine ? E mais: de onde é que ele veio ?
O que
ele quer, afinal ?
Por ser embrionário, ele é disforme,
repugnante. Há fanzines que assustam. Sua realidade, inconsistente e
arbitrária, o torna irresistível, como um monstro. Tanto quanto o
monstro do Dr. Frankenstein, costuras grosseiras de pedaços da
cultura cerzindo justaposições chulas de Spinoza com Carlos Zéfiro,
o encaixe do fêmur de Jean Genet no osso ilíaco de Marcatti. Um
fanzine poderia tirar o sono até de um Gilles Deleuze.
E é assim
que, do porão insalubre, o fanzine nasce espontâneo, sem
auto-crítica e arfando de ansiedade por ser conhecido e conhecer
outros párias como ele, pois a solidão seria seu pior
castigo.
Quem seriam os loucos responsáveis por essa criatura
nojenta?
Fiz meus fanzines por absoluto desespero. Era isso, ou
me matar. Em suma, fiz fanzines porque não tinha outra saída. Ora, o
fanzine é o espaço ideal pra se cometer todos os erros e todos os
acertos. Então, era a salvação. Nos meus fanzines, cometi muitos
erros. Que importa? Eu estava vivendo!
Em Whitechapel, Jack the
Ripper não fez o trabalho sozinho; para fanzinar, não tive pudores
em contratar dois loucos notórios e famosos pela competência crítica
e cultura em HQ: Ota (eternamente MAD) e Patati, roteirista e
professor de comunicação. Eu pagava pelas matérias, independente das
vendas.
Meu primeiro título foi NOTÍCIAS DOS QUADRINHOS, com o
número 1 gratuito, surgido das trevas em janeiro de 1984 e mais dois
números, respectivamente em março e maio, publicados no Rio, cada
qual com tiragem de mil exemplares. As artes de cada página, eu
montava em papel-cartão tamanho A3, colando ali xerox das imagens e
tiras de textos datilografados em máquina elétrica IBM esfera.
Daquelas artes, eu fazia fotolitos. Daí, as chapas que rodavam na
minha própria impressora off-set Multilith, operada por um
profissional, imprimindo em papel Buffon A4. Cada volume, alceado e
grampeado manualmente, levava 30 páginas ou mais.
Remeti cerca de
trezentos exemplares do número 1 por correio. Assim, passei a
receber também todos os fanzines existentes. Haverá alegria maior
que receber gratuitamente um fanzine em sua caixa de correio? Atingi
artistas, editores, profissionais da cultura, estudantes,
jornalistas…
As vendas por correio, ou em livrarias, foram de
cerca de 500 exemplares por edição, uma boa marca.
A atividade de
fanzineiro foi uma farra que me proporcionou oportunidades
inesperadas: convites generosos, como o de Waldyr Igayara, para ser
editor de HQ na Abril (minha postura extremista, à época, me fez
recusar); um casamento fantástico, que durou nove anos (pois é:
fanzines são ótimos pra pegar mulher); e um mar de amizades. Worney
de Souza acolheu em seu QUADRIX minha proposta, feita no NOTÍCIAS,
de aplicação da data 30 de JANEIRO como referência nacional pra
nossos quadrinhos ( Angelo Agostini lançou seu primeiro personagem
seriado, Nhô Quim, nesta data, em 1869) em oposição ao 14 de Março
da editora Ebal, que na realidade comemorava a entrada maciça dos
“enlatados” norte-americanos. Os quadrinistas paulistas tinham uma
associação politizada, que terminou por implantar a data 30 de
Janeiro em premiações, eventos, calendários, o escambau Foi ainda
graças ao NOTÍCIAS que criei revistas para a Press Editorial (MEDO
foi premiada).

Eu aspirava fazer do NOTÍCIAS um órgão de classe.
A equipe dava suas próprias opiniões e historiava sobre a situação
do quadrinista nacional, sobre o mercado, sobre a Lei dos 50% de HQ
nacional nas editoras (lei que foi aprovada no Congresso em 1961
mas, parece, não foi regulamentada até hoje). Mas as matérias
culturais eram o grande destaque: talvez ninguém tenha feito
entrevistas tão longas e densas com Monteiro Filho ou mesmo com
Otacílio d’Assunção Barros. Mas, o que prometeu esquentar mesmo foi
a seção de cartas e resenhas (enfiávamos nossos bedelhos empinados
na seara alheia sem nenhum constrangimento, absolutamente cientes de
estarmos reconstruindo o
modus pensandi para o final do
século). Houve fatos hilário-trágicos como uma carta-desabafo de um
de nossos melhores artistas: longa e eloqüente, sua intenção jamais
foi ser publicada mas antes manter um diálogo de bastidores comigo
e, em tom nada reprimido, execrar editores e vícios do dia-a-dia das
publicações nacionais. Mal terminei de ler aquela carta-bomba,
redigi imensa resposta em adesão a todos os seus protestos, pondo
mais lenha ainda, e publiquei tudo. Foi uma merda mas, no fim,
salvaram-se todos, principalmente o gosto pela polêmica a qualquer
custo.
Em agosto de 1991, lancei PARÁBOLA-Revista de Estudo e
Crítica dos Quadrinhos, com dois Nºs, estimulado pela inclusão da
categoria Fanzine nas premiações da primeira Bienal de HQ do Rio.
Nesta época eu também dava muita aula de HQ e Ilustração num curso
próprio e decidi publicar meus estudos sobre a linguagem dos
quadrinhos, incluindo análise semiótica sobre Rudolf Töpffer
(inventor da HQ em 1827, Suiça), e outra sobre Angelo Agostini.
Entrevistei Moacy Cirne, denunciei editores piratas, mas dessa vez
fiz tudo sozinho, em xerox, somente algumas dezenas de exemplares.
Mesmo assim, o Jornal do Brasil publicou meia página sobre o
PARÁBOLA em seu caderno de cultura. Um jornalista do jornal Tribuna
da Imprensa quis fazer comigo um livro com aqueles estudos
semióticos, mas acabei não fazendo. Já a banca do Osny,
especializada em HQ, recebeu quinhentos pedidos, pois eu prometera
nos jornais colocar lá o fanzine, mas acabei esquecendo
completamente e o fanzine ficou muito pouco visto.

Quando me propus a fanzinar, eu queria briga, e
briga sem tréguas e muito menos pactos com o inimigo. Claro, o
inimigo era o invasor ianque. Aqui, no meu canto, eu não aceitava o
fato de as grandes editoras, Abril, Rio Gráfica e Editora (hoje
Globo) Bloch, Record investirem pouco ou nada no quadrinho nacional.
A Ebal, que investiu, estava pendurando as chuteiras… Considerava-as
acomodadas ao sucesso “pronto” do “enlatado”, achava-as covardes e,
no fim das contas, impatriotas mesmo. Porém, desde que recusei o
generoso convite de Igayara, fiquei sem chances de conferir o que é
necessário para se conquistar um público numeroso por um bom tempo.
Por ironia, nos anos 1960/1970, pudemos fazer muita HQ nacional,
talvez bem vistas pela ditadura sanguinária como fonte de evasão
ideal para jovens e cidadãos acuados/alienados: os temas, por
excelência, tratavam de sacanagens eróticas, humor e terror. Quem
sabe foi através da sublimação em horror, erotismo e sátira (a cara
do Brasil?) que sustentamos as esperanças do cidadão na sua vitória
final contra a loucura dos monstros. Mas, principalmente,
estávamos
subsistindo/resistindo como artistas e mantendo
território. A partir da “abertura” nos anos 1980, é que a coisa pra
nós foi ficando mais morta-do-que-viva, as gerações de
leitores
lobotomizados/globalizados colecionando e se emocionandp
com sucessivas edições do SUPER(GEORGE W. BUSH)MAN. Conquistar
mercado para o quadrinho nacional se tornou puro idealismo, seria o
mesmo que os palestinos derrotarem Israel.
Onde será que erramos
? O sistemão alega que a falha é nossa; nós botamos a culpa no
sistemão. Existem mais fanzineiros do que quadrinistas
profissionais. Estaremos fadados a integrar eternamente o
MSQ-Movimento dos Sem Quadrinhos ?