Amor Macabro
 
 
O cemitério já estava encharcado pela forte tempestade que caía, quando Kathy caminhava, como de costume, em direção a um túmulo. Os relâmpagos clareavam o céu, iluminando as lápides das tumbas. Kathy parou no túmulo de Peter Grey, o homem que ela amava e por quem daria sua própria vida. Era difícil acreditar que agora o seu corpo estava ali, enterrado, sendo consumido pelos vermes.
Peter sempre dirigia com grande, habilidade, mas nunca poderia imaginar que seu trágico destino já estava selado, colocando-o frente a frente com um caminhão e provocando sua morte instantânea. Todas as noites Kathy ia ao cemitério para dizer-lhe boa-noite. Ela acreditava que Peter voltaria e, por isso, ainda mantinha o apartamento que ambos decoraram antes de marcar a data do casamento. Era impossível esquecer um amor tão profundo e, com os olhos cheios de lágrimas, saiu do cemitério sem perceber que um estranho vulto a acompanhava. Chegando ao apartamento onde ela e Peter tinham planejado viver, Kathy pegou o retrato de seu querido noivo. Misteriosamente o sorriso de seus lábios havia desaparecido e quando ela tentava compreender aquele estranho acontecimento a campanhia tocou. Kathy levou um grande susto. Ninguém sabia aquele endereço. Quem poderia ser?
Com as mãos tremulas, ela abriu a porta, sorrateiramente. Um vulto sinistro usando um sobretudo preto surgiu à sua frente.
- Quem é você? – perguntou Kathy apavorada.
- Sou Alan Grey, o primo de Peter.
Peter sempre falou que não tinha parentes. Quem seria aquela criatura?
Kathy estava curiosa e mandou que Alan entrasse. Só quando se acalmou pôde notar que ele se parecia muito com Peter. Foi então que Alan explicou que eles eram grandes amigos e Kathy começou a simpatizar com ele. Inexplicavelmente os dois logo se apaixonaram e Kathy ficou aflita por estar traindo a memória de seu noivo. Súbito, Kathy observou algo estranho na fotografia de Peter. Ele sorria novamente como se estivesse aprovando o seu amor por Alan.
Agora Kathy tinha certeza do que havia realmente acontecido. Peter havia voltado do além, em outro ser e estava ali, envolvendo-a, novamente, em seus braços!
 
 
 
Feitiço Cigano
 
 
 
Normam B. Peace
 
 
 
Ao lado do velho carroção, Berta remota um cachimbo tão velho quanto ela, que no dizer dos ciganos de sua tribo era tão velha quanto o tempo.
No acampamento, ao lado Leste das torres do Castelo de Epsnein, a planície desdobrava-se num lençol verde, batido àquela hora pela luz do luar. Berta apertou mais os olhos miudinhos e fitou um ponto negro que avançava como uma flecha em sua direção. Era Jaino, o coxo, que vinha a toda brida, trazendo-lhe notícias de Zínara.
A velha cigana esperou que o acólito apeasse e então indagou com a voz roufenha, mais se assemelhando a um lamento fúnebre:
- Então, capeta... onde se mete aquela vagabunda?
Jaino abaixou a cabeça, riscou o chão três vezes em sinal de respeito, com a ponta do polegar, e falou excitado:
- Vi-a entrando no castelo pela porta que dá para o lado do rio. Berta retorceu o rosto numa expressão indefinida e os cabelos pardos eriçaram-se. Jaino afastou se temeroso. Sabia que quando aquilo ocorria, Berta entrava em comunicação direta com os seres das trevas!
Depois, olhando a lua boiando num firmamento muito azul, a velha praguejou alto e repetiu as palavras misteriosas da cabala. E num assomo de raiva, berrou para Jaino:
- Vai, desgraçado. Volte para lá e fique vigiando até a hora em que ela sair. Não a deixe vê-lo... e faça como mandei.
Claudicando da perna esquerda, um defeito que trazia de berço, Jaino azulou imediatamente, curtindo no fundo um sentimento de ódio e despeito. Também como os demais de sua tribo, era apaixonado por Zínara e não conseguia resistir aos encantos que sua beleza selvagem expandia.
Aceitara trabalhar de comum acordo com Berta a fim de poder obter a sua cota de vingança... pois desde há seis meses, quando o grupo se instalara próximo ao castelo, Zínara dera sinais de fraqueza evidente... enamorando-se de Robert Wall, filho de Lord de Epsnein.
Aquilo motivara revolta geral no selo da tribo, mas ninguém tinha
coragem de censurá-la... temendo perder suas atenções. Agora, era chegada a hora da vingança!
Às cinco horas da manhã, Jaino viu o portão abrir-se e por ele deslizar furtivamente a figura esbelta da bela cigana. E seus olhos arderam de ódio e o coração ameaçou sufocá-lo enquanto a mão apertava ardorosamente o cabo de prata do punhal húngaro.
Zínara atravessava agora a metade do campo. Seus cabelos vinham soltos, soprados pela brisa suave da manhã e os raios da aurora tornavam mais excitantes sua pele morena, refrescada pela noite que passara nos braços de Robert Wall.
Jaino lutou consigo mesmo. Sabia o que era preciso fazer... mas faltava-lhe a força necessária. Bateu duas ou três vezes contra o solo e invocou a figura de Berta. Quase subitamente, do canto de uma pequena sebe, viu subir uma labareda arroxeada e sentiu um forte cheiro de alho... Sabia que Berta estava ali em corpo mental. Em pequenas convulsões, viu-se repentinamente envolvido pela chama fria e temeu que fosse perder a consciência.
Zínara estava bem próxima agora. Um instinto secreto advertia-o de que era preciso agir com rapidez e segurança para evitar qualquer reação da parte da moça. Uma palavra de perdão que fosse proferida por ela, quebraria nele as forças do mal que o encantavam. Mas, tal coisa não aconteceu. O que viu depois de um salto felino e de haver sua mão mergulhado de duas a três vezes no peito da cigana foram os olhos vidrarem-se e uma golfada de sangue inundar-lhe o rosto.
Morta, a cigana caiu sem um grito de dor. Seu corpo ficou no chão estendido, enquanto Jaino fugia a toda velocidade em direção ao acampamento.
Iniciavam-se os primeiros movimentos da manhã, agitando a vida da comunidade, quando o rapaz chegou espavorido, banhado em sangue. O primeiro a vê-lo assim foi Dormik, o tocador de flauta e, reconhecidamente, o maior enamorado de Zínara.
- Louvado, Jaino! Que houve? Está ferido?
Tomando de súbito pânico, o rapaz negaceou com a cabeça e, sem prestar atenção ao que dizia, afirmou:
- Oh não! Matei Zínara. Está lá no bosque com o peito aberto!
Nada poderia ter maior força do que aquelas palavras que funciona-ram como um impulsionador mágico. Imediatamente toda a tribo foi to-mada de incontido alvoroço. E ali mesmo, iniciaram o julgamento cigano: os mais velhos sentaram no interior de um círculo feito a giz, tendo os jovens à sua volta. A sentença partia do meio do círculo e era atirada contra os mais jovens em torno.
Movendo os lábios em sussurros, os anciãos discutiam. Depois, de acordo com o decidido, era atirado para cima um búzio preto ou branco: o primeiro condenava o acusado à morte; o segundo, bania-o para sempre. Os dois juntos, ao mesmo tempo, significavam absolvição.
A mente de Jaino estava por demais perturbada para prestar atenção a esses detalhes e somente quando o búzio preto foi lançado ao ar, pôde compreender que iria morrer.
Tomado de pânico, gritou por Berta, pedindo-lhe socorro, mas nem uma palha moveu-se. A velha cigana continuava imóvel, sentada no seu canto sem mostrar a menor preocupação pela sorte de Jaino.
Ouvindo a risada da turba, Jaino foi levado a uma árvore próxima, no tombo de um cavalo e tendo a corda passada no pescoço. Num movimento rápido, o carrasco alçou um galho forte e depois de proferidas as palavras do Wandor preparou-se para espalmar o animal, deixando o condenado balançando-se pelo pescoço na ponta da corda.
Súbito, alguém lembrou-se:
- Vamos buscar o corpo de Zínara para que esteja presente à execução!
- Não - gritou Berta - saindo do seu horrível mutismo. - Eu mesma irei.
- Como tu, velha bruxa? Não tens forças nem para...
Berta lançou um olhar gelado sobre o audacioso e ele se catou enco-lhendo-se acovardado a um canto do grupo. Em seguida, a velha sumiu na planície.
Mas, a impaciência, o ódio e a revolta gerados no coração da turba não podiam esperar mais. A figura de Jaino era um desafio brutal às lembranças amorosas destruídas com a morte de Zínara. E por que mantê-lo vivo por mais tempo? Sim, por quê?
Um par de mãos vigorosas assustou o animal, fazendo-o sair a galope. Um tranco forte deteve a vítima na ponta do baraço... E momentos antes de expirar para sempre, ainda viu, surpreso, como os demais, a figura esbelta da bonita cigana surgindo da planície como se nada lhe tivesse acontecido... trazendo sobre os ombros o corpo inerte da velha Berta.
Depois, atirando um largo sorriso à todos, a cigana aproximou-se de Jaino, que já exalava o último suspiro e disse baixinho para que ninguém a ouvisse:
- Obrigada, Jaino. Agora poderei viver mais cem anos!...
Só então, Jaino reconheceu em Zínara a voz roufenha e cavernosa de Berta. Mas aí... já era tarde. Tarde demais para arrepender-se!
 
 
   
A Mão Embalsamada
 
 
 
John Harrison contemplou a figura espadaúda e grave do Professor Kauperman, avançando em sua direção à entrada do laboratório, e disse:
- Oh, professor, espero que me desculpe. Mas a velha curiosidade não me deixou escapar esta também.
E com duas pinças pegou uma mão decepada que se encontrava num vidro de formol e completou:
- Tirei-lhe as impressões digitais para os meus arquivos.
Com acento grave na voz, Kauperman fê-lo compreender que o fato não tinha qualquer importância.
Mas, não podendo conter por mais tempo a sua curiosidade, Vanny, a assistente do laboratório, indagou firme:
- Que há de especial com esta mão, John?
- Quem melhor poderá responder? - idem à sua pergunta é o professor.
Vanny adiantou-se e atacou o velho professor com um par de olhos muito azuis e inquiridores. -
- Já sei, já sei, senhorita Vanny. Calculo o que irá me perguntar. Mas não espere que haja nada de científico nesta peça. Trouxe-a comigo... a bem dizer, nem mesmo sei porque.
E adiantando-se, Kauperman pegou as lâminas onde John fixara as impressões da mão decepada e narrou-lhes:
"Era o meu quinto mês na Ucrânia. Certa manhã, fui despertado pelo alarido que fazia um grupo de homens e mulheres enfurecidos, pouco além da minha janela. Notei que, entre eles, ia um homem amarrado e todo ensangüentado, sendo arrastado em direção ao poço da praça. O local há muito fora considerado imprestável pelo forte odor que exalava da água apodrecida."
Kauperman fez uma pequena pausa prosseguiu:
"Não sei porque, vestime às pressas e desci à rua, logo me mistu-rando com a turba. E foi assim que fiquei sabendo tratar-se de Borak, um perigoso ladrão há muito procurado. Horrorizei-me quando soube que iam matá-lo, afogando-o no poço, sem qualquer julgamento Aquilo angustiou-me de tal forma que por alguns momentos esqueci-me de seus crimes e só pensei naquele pobre diabo debatendo-se até a morte nas águas poluídas. Foi aí que, impensadamente, tomei uma atitude estranha, baseada numa velha lei da Ucrânia..."
- Que lei é essa? - quis saber John.
- Uma lei um tanto estranha - continuou Kauperman - e pela qual as pessoas acusadas de roubo podem se livrar da morte desde que surja alguém que se interesse em pagar um terço dos prejuízos causados pelo acusado. Mas o ladrão não fica inteiramente impune...
- Como assim? - perguntou Vanny:
Kauperman cofiou a barbicha e informou:
- O acusado tem a mão direita decepada e entregue ao seu benfeitor.
Limpando o suor da testa com as costas da mão; o professor prosseguiu:
- Um velho costume da região. Confesso que a penhora causou-me repulsa. Paguei o terço dos prejuízos exigido por lei... horrorizado, vi um golpe de facão fazer-lhe a mão direita saltar fora do pulso e rolar por terra, contorcendo-se, os dedos abrindo e fechando convulsamente, como se ainda guardassem o reflexo final dos nervos e tendões tentando fugir à dor.
- E depois, professor, que fizeram com a mão? — indagou John.
- Depois, pegaram-na com um pano sujo e deram-na. Ainda ouvi uma série de pragas contra mim. Pois todos desejavam vê-lo no fundo do poço.
Vanny esticou o pescoço para a frente e perguntou com ar de mofa:
- E o ladrão? Que é feito dele?
- Nunca mais o vi. Quando o soltaram, virou-se para mim e disse com uma voz estranha:
"Obrigado. Quando precisar de mim... virei em seu socorro."
- Muito interessante – disse Vanny. - Eu em seu lugar, escreveria esta história para uma revista de curiosidades.
John viu o professor franzir o cenho e rumar porta afora em direção aos seus aposentos. Tão logo Kauperman saiu, ele advertiu Vanny:
- Não deveria ter dito aquilo, Vanny. O professor não gosta de humor.
- Idiota é o que ele é, isso sim. Vive gastando sua fortuna nessas viagens enquanto nós ficamos aqui feitos ratos de laboratórios, examinando as peças que nos envia.
- Cale-se - tornou John. – Não gosto de ouvi-la falar dessa maneira. Ademais, você sabe muito bem que, quando ele morrer, nós seremos os únicos beneficiados... sua fortuna ficará para nós, a fim de podermos concluir a sua obra.
Vanny sorriu maliciosamente e Olhando a noite ir descendo, pensou:
"- E por quanto tempo ainda? Esse velho fóssil tem mais saúde do que dez touros juntos. Não! Terá que ser logo. Sim, será esta noite!"
E, deixando John envolvido com o trabalho, retirou secretamente um vidro de Manary, veneno fulminante, usado pelos mongóis, e saiu. Sabia que, uma hora depois de ministrá-lo no chá de Kauperman, não ficaria o menor vestígio.
Às dez da noite, Kauperman desceu. Como de hábito, cruzou a ante-sala e viu Vanny preparando-lhe o chá. Estava mal-humorado e não a cumprimentou. A moça acompanhou-lhe os passos com o olhar em esguelha e, no momento em que o professor atingiu o laboratório, ela despejou, de uma só vez, todo o conteúdo do vidro no bule de chá. Em seguida, tomando a bandeja nas mãos, deu um, dois, três, quatro passos e parou horrorizada. O que via à sua frente fê-la perder completamente a voz. O grito ensaiado na garganta ficou petrificado e a boca escancarada somente o permitiu escapar quando o pescoço estrangulado tombou para um lado, arrastando consigo, para o chão, o corpo inerte e o bule derramado.
Quando Kauperman e John Harrison atingiram a ante-sala, encontraram na já completamente sem vida. E uma rápida investigação permitiu-lhes deduzir claramente o que Vanny desejava fazer: matar Kauperman.
Na manhã seguinte, após o corpo da moça ter sido levado pela Polícia, John chamou o professor às pressas. Juntos rumaram para o laboratório e depararam com o vidro de formol onde antes se encontrava a mão de Borak... completamente vazio.
Um terrível pressentimento apossou-se do rapaz. Freneticamente, pegou as lâminas onde se encontravam as impressões digitais de Borak e comparou-as com as que foram encontradas pela Polícia na garganta de Vanny. E quando John, ao cabo de algum tempo, concluiu suas investigações, transfigurado de pavor, virou-se para Kauperman e disse com a voz tremula:
- Não há dúvida, professor: Borak retribui-lhe o favor; cumpriu a sua terrível promessa!
E só depois de muito procurarem, em vão, foi que John e o professor resolveram dar por encerrada a busca macabra. Compreenderam que a mão embalsamada de Borak sumira para sempre, deixando atrás de si um insondável e tenebroso mistério.
 
 
 
Somos Vivas, enfim
 
   
Emilia Ract
 
 
 
Não adianta, Sofia, está emperrada – resmungou a mulher pálida, cansada da longa caminhada que antecedeu a chegada no cemitério.
“Mas viemos de tão longe, derrubamos tantos obstáculos” - murmurei.
- Não vamos desistir aqui! Deve haver um jeito. Temos que abrir!
- Está enferrujada! Não contávamos com isso – disse Ana Thereza, mulher forte, porém nem tanto a ponto de abrir uma porta fechada há séculos.
Era um crematório antigo. Havia cheiro de cadáveres antigos pelo ar. Cheiro de cinzas humanas; um cheiro hipnotizante.
- Ah! Mas precisamos entrar. Se nos unirmos, conseguiremos! Vamos procurar um pedaço de tronco! Deve ter algum aqui – redargüi, ansiosa.
- Está bem, Sofia – disse Helena.
Elas me conheciam por Sofia, mas, na verdade, meu nome era Alitzah. Minha mãe me disse certa vez que este nome significava “jubilosa”. Começamos então a procurar. De súbito, Helena deu um grito: - Achei!
Não sei como aquilo poderia estar lá, mas servia perfeitamente! Alguém já tentara abrir a porta, e esqueceu ali, talvez por não ter conseguido êxito em abrir a porta... Mas não tinha tempo para pensar nisso. Sim! Um pé-de-cabra! Foi fácil. Encaixei a ferramenta, como deve ser usada, forçando-a para baixo, a fim de quebrar as correntes enferrujadas e sujas. Um estrondo... A porta abriu, derrubando sua poeira em cima de mim, rangendo... caindo...
As mulheres se entreolharam satisfeitas e adentraram nas dependências do salão.
O odor... Como, por tantos anos, é possível sentir cheiro de morte aqui?
Andamos, vasculhando todos os cantos do local, observando admiradas a grandeza das salas e gavetas que seguiam em direção de onde deveria ficar o fogo, o fogo que dava fim ao corpo morto do ser que tinha desejo de ao pó retornar, no sentido mais pleno da expressão.
- Deve haver um porão aqui – disse eu olhando ao redor.
- Esses lugares tendem a ter passagens subterrâneas, sabem? Para os rituais proibidos... Amelie, me ajude a procurar!
Ela veio prontamente. Amelie era muda, mas se comunicava com o olhar de uma maneira que ninguém mais o fazia! Ela parecia farejar a entrada.
Todas elas me serviam. Éramos de uma seita composta apenas por mulheres, que largaram tudo para encontrar sua paz interior, as respostas para as loucuras internas do ser, a busca da realização de desejos obscuros. E nesta noite iríamos evocar algo soberbo. Algo profano, mais profano do que nossas mentes sedentas por vida. Vida em nossas veias... e espírito.
Desde que quando conseguimos por magia essa “arte”, ela nos persegue. Essa sede... E não queríamos mais matar estupradores, mendigos e ladrões, para saciá-la, pois se continuássemos, a terra ficaria sem habitantes. O mal imperava muito no mundo ultimamente... isto tinha que mudar.
Decidimos então abrir o Livro dos Mortos e realizar o culto proibido. Um culto antigo. Que desperta coisas antigas e sem fim, coisas com desejos obscuros e sem limites. Seres etéreos, conhecidos pelos humanos como demônios e por nós como anjos.
Ana Thereza relutou um pouco quando dei a idéia, mas nenhuma de nós tinha nada a perder mesmo... Andávamos por anos a sós. Caminhando por cidades, sendo expulsas das mesmas. Algumas foram queimadas pela Igreja. Irmãs que descansavam em paz, onde elas estavam.
Amelie veio correndo em minha direção e apontava para a lateral do corredor escuro – ela havia achado!
Fui em sua direção e vi uma entrada com as madeiras quebradas. Uma porta no chão que de certo daria ao porão que procurávamos.
Descemos. Um cheiro diferente... enxofre? Talvez. Um misto de poeira com cinzas humanas, com humildade...
Começamos os preparativos. Suelen trouxe os cavalos e os deixou amarrados mais próximos para que não se perdessem dali e assim sendo nos servirem de volta. Se é que haveria volta naquela noite.
Acendemos as tochas para iluminar o local. Penélope acendeu os incensos de mirra e estendeu o tapete negro da entrada do porão até o altar antigo, uma pedra de mármore branco, fria, límpida como o olhar de Manuela, que estava assustada, mas com os olhos vivos e serpenteantes.
Vestiram suas capas brancas, com exceção de mim, que esperava por Carolina, que trazia o manto negro de cetim, numa urna, junto com meu óleo aromatizante e as velas. Carolina me banhou com um pouco de óleo cheirando à arruda e com pétalas de rosas brancas colhidas pela manhã por Helena.
Éramos em 13 mulheres. Cada uma com sua função no rito. Cada uma com seus desejos de libertação. Cada qual com seus medos e pavores. Com sua saudade e sede.
- Que se inicie o culto! – gritou Stefanie.
Deitei-me no altar e me deixei levar pelo som dos tambores tocados pelas mãos brutas de Ana Thereza. Um arrepio me percorreu a espinha. Fechei os olhos e comecei a dizer palavras que me vinham à mente, palavras que decorei do Livro dos Mortos: “Abisheka, Aedom, Athanaton, Etéreo, Supla, Asakku!” – repetia como um mantra, freneticamente, cada vez mais forte e alto o som.
Até que elas começaram a entoar o cântico comigo, numa voz uma e bela!
Eu estava ficando louca, surda. Só ouvia nossas vozes e o tambor cada vez mais sem sentido, cada vez mais fortes, intensos, desejosos, como se todas soubessem o que diziam.
“Abisheka, Aedom, Athanaton, Etéreo, Supla, Asakku!”
De repente, um estrondo ensurdecedor. Fora um trovão?
Não, foi a porta lá fora... a outra parte dela despencou com toda força. Teria sido o vento?
Os cavalos estão agitados... mas não parávamos, não podíamos parar! Continuamos de olhos fechados, em transe, entoando o mantra.
A porta se abriu, e olhos vermelhos como pequenas brasas vinham da escuridão. Olhos brilhantes como vaga-lumes de sangue. Vermelho rubi.
Da escuridão irromperam homens nus. Muitos. Creio que 21 ou mais.
Vinham num bloco humano, escondendo ou protegendo algo ou alguém no maio da massa.
Os cavalos! Alguns dos homens traziam suas cabeças e também baldes de prata com sangue deles! E eu ali, acorrentada, nua por baixo do manto negro, banhada em suor e óleo, deitada no mármore frio.
De repente, entoei um grito:
- Athanaton Asakku!!!
Dentre os homens que ali estavam, um vulto emerge, de um salto, corpo esbelto, pêlos densos, olhar branco, vazio e intenso. Saltou por sobre mim! Enfim, ele veio! Veio para mim... para mim! E eu estou aqui, para ele e por ele!
Como parte do ritual, olhei em seus olhos profundamente e perguntei seu nome: “Diga! Anjo Negro do corcel alado, em alto e bom som, qual teu nome?”
Ele nada fez além de me encarar com um sorriso de canto de lábio, um sorriso medonho. Indaguei novamente, mas antes que eu o terminasse arrancou minhas correntes dos braços, deixando as das pernas e rasgando meu manto com as garras afiadas de seus dedos das mãos, deixando-me nua e com frio.
Cheirou-me todo o corpo, penso que o ouvi rosnar até. Uma onda de desejo misturado com medo me percorreu dos pés até a nuca... frenesi...
O som dos tambores prosseguia, o fogo do incinerador fora aceso e cada homem possuía na arte do sexo uma de minhas seguidoras, e às vezes mais de um. Eles faziam-nas beber sangue.
Eu tinha velas ao meu redor colocadas por eles, grandes e incandescentes. Senti sua língua áspera em meus seios e subir até meus lábios, então ao pé de meu ouvido, ele finalmente sussurrou: Lupus Severus!
Lupus Severus era seu nome. Senti sua mordida profana e profunda em minha virilha esquerda me arrancar um pouco do líquido escarlate que me corre nas veias.
E logo em seguida me ofereceu seu pulso, o qual eu sutilmente mordi no início e depois vorazmente, quase arrancando a pele de tamanha delícia que era seu sabor.
- Quem te alimenta é seu Deus – ouvi-o dizer. E eu era sua deusa e escrava adorada.
Deuses venerados pelos servos que agora nos banhavam com o sangue dos animais sacrificados e deles mesmos às vezes em que ficavam mais insanos e desorientados. O líquido escorria em nossa pele branca e nos causava ainda mais loucura lasciva, e desejo luxurioso. Escorria em minha pele como o suor, misturado a ele e ao cheiro de sexo que inundava o lugar.
Já não se sentia mais o aroma da morte. O cheiro agora a invadir minhas narinas era bem mais agradável e enfeitiçante. Era sangue, com volúpia e vida!
O calor da chama aumentava conforme nossos orgasmos seguiam. Sem fim. E ouvia-se gritos e gemidos, e cânticos e tambores, crepitar das chamas e sussurros.
Trovões, mantras, gemidos do anjo-demônio em meus ouvidos. Tudo isso enlouquecia-me, fazendo sentir perder os sentidos, mas despertar a cada vez que ouvia os gemidos dele. Gemidos dados em cada vez que eu sorvia seu sangue. E ele se realizava nos gemidos de prazer emitidos por mim quando sorvia de mim e me penetrava cada vez mais fundo e intenso.
Sentia minha carne interna se romper a cada investida e isso me fazia desejar mais e mais. Eras meu e eu, tua. Éramos deuses de si e de todos.
A noite sem fim seguia e os corpos dos serviços descansavam exaustos enquanto eu e ele ainda dançávamos no frenesi do instante eterno, no entusiasmo de nossos corpos exaustos, movidos apenas pelas almas insanas e insaciáveis. Eu poderia morrer ali, com ele, mas ele não permitiria, esse rito não tem fim. Essa dança jamais acabará. O tormento será para sempre prazer. A dor se transmutará em êxtase. O êxtase em morte, e esta em vida.
E esta era uma parte do livro que eu não contei a ninguém antes de chegarmos aqui. Esta parte do Livro dos Mortos preferi omitir pois, dentre todas nós, eu era a única capaz de amá-lo de verdade como anjo e demônio, como meu e do mundo. Eu era a única capaz de sofrer com ele por todas as noites. Era a única em quem ele confiaria e seria o que realmente é e a única a me prostrar por completo para sua alma. E ali seguimos, sem fim, na dança, na sedem nos cânticos, na dor e no amor.
 
 
 
Littera enim occidit, spiritus autem vivificat.
 
 
   
Abhisheka: (masculino) Nome técnico da Iniciação Tântrica. Ordenação
Aedom: Palavra pertencente à língua de ouro dos Mestres da Luz. Significa Aflição Mística.
Etéreo:
Supla:
Asakku: Demônios
Athanaton: (grego, Thanatos = Morte) Imortal.
Lupus: Lobo.
Littera enim occidit, spiritus autem vivificat: A letra mata, mas o espírito vivifica.
Libertas quae sera tamen: Liberdade ainda que tardia.
 
Livro Negro dos Vampiros 
Editora Andross, 2007 
 
 
 
   
Noite de surpresas
A noite está perfeita.
 
 
 
Camila Moura e Adriano Siqueira
 
 
 
É um absurdo eu ficar ali, na companhia das minhas músicas, vinho, livros, pc... Porém sozinha não tem sentido. Falta-me calor, alguém para compartilhar e dividir esta noite maravilhosa.
Observo a lua da minha janela, alguma coisa está me chamando para a rua...para a noite, e eu não posso recusar, não quero recusar.
São mais ou menos onze da noite quando decido então ir a uma boate já conhecida. Banho, maquiagem, roupas, essências, apetrechos diversos...
Já passa da meia noite. Deixo meu apê para ir ao clube.
Próximo à boate as ruas estão desertas. Estranhei, mas acho que é culpa do mau tempo. Nem todo mundo sai com aquele tempo de chuva. As ruas estavam vazias...Normalmente estão cheias de carros turbinados, com seus rádios altos, mauricinhos bêbados e algumas pessoas que apenas querem uma noite mais divertida do que um apartamento vazio e frio.
Paro na porta da boate mas não há ninguém... nenhum segurança, bebum, garçonete, drogado, nada. Apenas uma placa dizendo Caça aos Vampiros Hoje.
Vampiros? Eles estão malucos? Deixar tudo aberto e sair à procura de vampiros?
Muitas perguntas na minha mente… melhor ligar para um conhecido atrás de respostas. Acho uma cabine telefônica e caminho em direção a ela. Porém enquanto caminho, começo a sentir uma estranha sensação de que estou sendo seguida... observada, mas alguma coisa me diz que é melhor fingir que nada acontece.
Continuo até a cabine e apoio minha bolsa para procurar minha agenda, não demoro muito para voltar a sentir aquela sensação de que estava sendo vigiada, mas, finjo não sentir a presença. Em vão, a respiração na minha nuca, o perfume sutil e uma voz sublime e hipnotizante me dizendo que deveria segui-lo.
Sou puxada e guiada por uma mão masculina, forte, quente, macia, que me faz esquecer da bolsa, da ligação, das ruas desertas e principalmente do possível perigo que eu posso estar correndo.
Meio tonta, sem entender o que está acontecendo, não ofereço resistência e simplesmente o acompanho, quieta e calada como uma boa menina.
Quando dou por mim já estamos dentro da boate, que está vazia. Mesas vazias, bar vazio, pistas sem corpos suados dançando...
Ele me deixa sentada no bar e passa para o lado de dentro, e vejo-o preparar uma bebida. Ainda não consigo entender porque não fiz nada, porque estou sem reação. Ele é alto, jovem, não deve ter mais do que 25 anos, tem o corpo magro, porém atlético, usa roupas negras, correntes que brilham um pouco, cabelos levemente cacheados e meio compridos que lhe caem no rosto, que ele mantém abaixado por um bom tempo, concentrado nas bebidas que prepara.
- Acalme-se! -Diz ele -Logo eles verão a loucura que fazem, logo verão que tudo isso é uma grande tolice... que é impossível caçar vampiros!
- Por que diz isso?
- Porque... Bom, não sei…
Ele encosta mais para perto do meu rosto e me toca com suas mãos.
- Acredita em vampiros, moça?
- Claro! Você não?
Ele me beija... Fico ali com ele sentindo cada toque dos seus lábios nos meus… seus doces lábios quentes deixam os desejos fluírem, suas mãos deslizam no meu corpo e com elas minhas roupas descem facilmente, tocando em meus seios com os lábios ele me deixa mais ansiosa e excitada... mas o tempo se esvai.
Carinhosamente encaminho meus lábios para seu pescoço e finalmente sacio minha sede até que a sua pele quente fique gelada e embranquecida. Largo o corpo ao chão e vou para casa.
A noite é linda e cheia de surpresas...
 
 
 

 

 

 

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